passos

Posted in Uncategorized on Setembro 1, 2010 by ahelanae

Ouço passos na escada, o meu coração salta sobressaltado. Será ele? Encolho-me sobre mim mesma com o temor de o ser. Fico expectante a olhar para porta e ouvir a sua chave na fechadura. Passam à minha porta e continuam. Suspiro.
Vou até à casa de banho limpar o meu rosto. O espelho devolve-me a imagem de um rosto maltratado, cheio de manchas negras. Não saio de casa, tanto por medo dele como por vergonha, não queria que me vissem assim. Derrotada. Lembro-me de quando era mais nova, da força de viver que tinha, sinto saudades desse tempo em que vivia sem medo, sem sobressaltos. Mas agora tudo acabou, e sei que o meu dia-a-dia é este.
Tudo tem que estar impecável, tudo limpo e quando chegar quer a comida na mesa, come enquanto olho em pé ao seu lado, depois corre a casa à procura de um erro que tenha feito. Depois sei, que vem a fúria, por estar tudo bem ou por ter algo mal. É a mesma coisa sempre, um dia de terrores, depois vêm as desculpas os pedidos de perdão. Mas o medo fica sempre permanente em mim.
Ouço a maldita chave que me sentencia a mais uma noite negra e prometo a mim mesma que não vou chorar, é desta vez que não o vou.

pinceladelas

Posted in Uncategorized on Agosto 29, 2010 by ahelanae

Ajoelhada em frente à tua campa as lágrimas correm-me livres pela minha face. Sei que já não te verei novamente e nunca mais olharei nos teus profundos olhos azuis.
Passaste anos a sofrer com a tua doença, Parkinson, vi-te decair com o passar dos anos. Ao início tentaste controlar os tremores pintando, existem alguns belos quadros por ti pintados, depois isso já não te ajudava. Nessa altura, tinhas apenas que pegar na tua máquina fotográfica, o teu grande e único amor, para que, mesmo nos teus últimos momentos, para conseguires controlar os tremores e atravessar a rua da tua casa para o jardim da praça com as muletas penduradas nos braços eco passos firmes sem a menor indicação de tremores. Mas, isso era sol de pouca dura, rapidamente as forças lhe faltavam e os tremores voltavam.
Ainda me lembro de ser pequena e morrer de medo do teu dedo sem unha que tinha cortado na guilhotina quando eras mais novo e ainda jogavas futebol no Rio-Ave e tentavas fazer um nome em fotografia.
Tantas viagens, tantos prémios, terão mesmo valido a pena?
A vida não te premiou com filhos, viveste para o trabalho e para nós, as tuas sobrinhas, mesmo que nem sempre te víssemos.
Foste feliz, tudo o que passaste fez-te o homem que relembro aqui. Não consegui vir ao teu funeral, desculpa não fui capaz de te ver assim, queria que a minha memória de ti fosse as que tenho de criança a correr atrás de ti para a câmara escura, onde revelavas os rolos e contavas os seus segredos, quero apenas recordar quando me ensinaste a pintar com os teus pastéis uma bela rosa vermelha e o teu sorriso que iluminava os teus olhos azuis.
Agora vou embora e deixar-te partir, vou seguir a minha vida contigo no meu coração e na minha memória para sempre como aquele homem enorme que brincava e ria como uma criança.

Um voo atribulado

Posted in Uncategorized on Agosto 28, 2010 by ahelanae

A viagem de avião estava a ser diferente de todas as outras que alguma vez tinha feito, para além de ser Verão, era véspera dos meus anos. Eu já tinha voado antes, mas esta era a primeira vez que ia até ao cockpit e sentar-me perto dos pilotos a observar como eles trabalhavam, ver o que eles viam da frente do avião e tentar sentir o que eles sentiam. Eu sei que isto era um pouco difícil, mas não seria impossível. Eu embarcara em Bordéus, nessa manhã às nove horas, e o avião dirigia-se para o Canal da Mancha. Da minha janela via casas a ficarem cada vez mais pequenas, essas casas passam a vilas, perdendo todos os pormenores que antes eram tão nítidos para mim. Enquanto o avião subia uma pressão impulsionava o meu corpo para baixo até este estabilizar.
Chamaram por mim, finalmente chegara a minha vez. Levantei-me e dirigi-me para o cockpit, logo à entrada à esquerda estava um banco onde me pediram para me sentar e apertar o cinto. Apesar de estarmos no início de Julho, no dia anterior tinha estado mau tempo e o piloto temia que fossemos encontrar turbulência pelo caminho, apesar de não haver qualquer previsão que tal ocorresse, mas nunca se sabe ao certo o que esperar. Estavam três homens sentados lá, o piloto, o co-piloto e o navegado, penso eu. À minha volta só via mostradores, botões e botõezinhos cujo objectivo para a sua existência era-me totalmente desconhecido.
Voávamos por cima do mar do canal e eles começaram a subir o avião, aos poucos o meu horizonte foi-se alterando e deixei de ver o azul do mar passando a ver o do céu. Todos eles estavam muito concentrados no que faziam e eu apenas pensava como é que eles sabem para onde vão e o que têm para, nunca revelando o que pensava para que eles não se distraíssem do seu trabalho. Pouco depois desta subida abrupta deixei de ouvir os motores do avião e nesse momento o meu cabelo começou a flutuar e caso eu não estivesse presa no meu banco teria flutuado por ali fora sem qualquer rumo. O que senti naquele momento foi a verdadeira sensação de liberdade, de estarmos dentro do nosso corpo e de não estarmos. De deixar de estar presa a algo, de sentir o chamado peso da vida. Senti-me livre como nunca mais me hei-de sentir. O meu cabelo continuava a flutuar à minha volta livre e solto. Deixei de estar presa ao solo, à gravidade e senti que seria capaz de tudo. Pensei se seria assim que os pássaros sentiam, o que era disparatado mediante as circunstâncias.
Essa sensação durou pouco tempo e aos poucos o meu horizonte inverteu-se. O avião caía em queda livre em direcção ao mar, nesse momento os motores começam a trabalhar e os três que se encontravam no cockpit começaram a puxar pelo avião para o endireitarem, mas ele dava luta não querendo ceder. O chão aproximava-se mais e mais cada vez mais depressa. O meu coração começava a bater descompassadamente, parecia que me ia saltar do peito. A sensação de liberdade deu lugar a um peso enorme, sentia-me mais pesada, colada ao meu lugar sem reacção. E nada podia fazer, estava ali impotente a ver o que se passava e desesperava mais a cada segundo que passava. Pensava endireita-te, endireita-te. O chão estava cada vez mais próximo a uma velocidade ameaçadora. Endireita-te, pensava eu. Apetecia-me gritar, mas contive-me. Por fim lá o avião cedeu e voltou à sua posição original.
Sinto uma mão no meu ombro. Pedem-me para sair pois outra pessoa queria ir para lá e tinha de ir ver como estava a correr a minha experiência antes que começasse outra parábola e me amarrar ao chão do A300 da Agência Espacial Europeia para mais vinte segundos de ausência de gravidade. A sair daquele cockpit pensei em quando admirava aqueles homens, que não se deixam intimidar facilmente e que são capazes de manter o sangue frio quando qualquer um de nós não teria sido capaz de o fazer. E como estar ali sentada era uma experiencia totalmente diferente do ver os esquemas e ler os relatórios de voo ou mesmo de estar na parte de trás do avião.

Viagem

Posted in Uncategorized on Agosto 25, 2010 by ahelanae

Manuel era um homem comum sem grandes sonhos nem esperanças, limitava-se a viver a sua vida de forma simples. Nunca sonhara com carros nem viagens, mas um dia decidiu que tinha de perder o medo que sentia de voar e comprou um bilhete de avião para um sítio qualquer com um nome exótico que não conseguia pronunciar.
No primeiro dia das suas férias, estava no aeroporto, sentado numa cadeira com as unhas cravadas no seu casaco, tentando controlar o seu receio. Ao seu lado sentou-se um homem com ar derrotado, o Manuel decidiu conversar com ele para se distrair da viagem que o esperava. Chamava-se Pedro e era um imigrante que tentava voltar para casa e ver os seus filhos, mas o voo já estava cheio e teria de esperar pelo dia seguinte. Este pronunciou o nome da cidade com toda a perfeição, era a mesma para onde o Manuel seguia.
Chamem-lhe sorte ou destino, Manuel chamou-lhe Deus, ele deu o bilhete dele ao pobre homem e voltou para sua casa. No dia seguinte veio a polícia dar à sua mãe os pêsames pela morte do seu filho num acidente de avião. Esta confusa chamou o seu filho, e este tem passado os últimos cinco anos a correr de cidade em cidade, de ministério em ministério, a tentar provar que ainda está vivo.

Vozes no Parque

Posted in Uncategorized on Maio 14, 2010 by ahelanae
 Já andava há horas, estava perdida, sem saber para onde me voltar, não via nada por causa do nevoeiro cerrado.Sentei-me, por fim, exausta de tanto andar, esperando por uma intervenção divina, um sinal de que caminho seguir que tarda a chegar. Suspiro e fecho os meus olhos cansados de tanto os forçar. um suspiro chega até mim como cantar de uma sereia que nos guia até a nossa perdição. Ao primeiro suspiro segue-se um segundo, e por aí em diante como se de uma conversa se tratasse.
Tento ouvir melhor, fico mais atenta ao que me rodeia. As vozes começam a parecer mais claras, mais nítidas. Primeiro a doce voz de uma criança, de uma menina, leve e fina como o cantar de um rouxinol, a sua voz tremia com o frio que a neblina do fim de tarde trazia. A acompanhá-la uma voz mais forte mas igualmente doce se ouvia tal margaridas num monte agreste, aos poucos aproximavam-se de mim.
Já começava a perceber frases soltas trazidas pela brisa da noite,”hoje o Manel…”, “deixa para lá”,…”de resto”… Pareciam mãe e filha, a segunda queixando-se do dia que tinha tido, provavelmente algum rapaz tinha-se metido com ela e esta estava a desabafar com a mãe o que se passara. As vozes aproximam-se de mim. Pode ser que me ajudem a sair deste lugar, ouço-as cada vez mais perto. Mas, depois começaram a afastar-se, decidi segui-las para me guiarem.

Pepe

Posted in Uncategorized on Maio 10, 2010 by ahelanae

As mão de Pepe são ásperas, sentem-se os calos de suas mãos por cavalgar diariamente. Passo as minhas mãos pela sua pele, lentamente, começando pelo seu rosto seco queimado pelo sol quente passando para a camisa enrugada. Diz-me que vai almoçar e convida-me, sinto um cheiro de lenha seca a queimar, sento-me ao seu lado no chão empoeirado que quando bate o vento me faz tossir. Pepe estende-me um pouco de pão seco e duro e coloca algo no lume. um cheiro forte a chouriço e feijão intoxica-me. Fala-me da sua casa, do cheiro dos bolos que fica no ar sempre que a sua mulher cozinha, fala-me da brisa fresca que o refresca a noitinha atravessando silenciosamente a casa, do toque suave das traves de madeira das paredes nuas. Fala-me do canto dos pássaros que fazem ninho debaixo do telhado do alpendre. parece um local pacífico, sereno.

Vida de um copo

Posted in Uncategorized on Abril 27, 2010 by ahelanae

O tempo começou a abrandar para nós que nos encontrávamos no escorredor de loiça. Não acreditávamos no que víamos, José, o mais velho copo daquela casa caía em direcção ao seu fim (devem pensar que os copos não têm nome, mas temos sim, quando atingimos uma certa idade ganhamos o direito a ter um nome). Era certo que assim que atingisse o chão, ele se iria estilhaçar , deixar de existir e acabaria muito provavelmente no lixo, pois o dono da casa não está para ir até ao quarteirão seguinte só para fazer reciclagem, se ele soubesse que esta nos dá a oportunidade de renascer como algo novo pensaria duas vezes.

Enquanto o via cair comecei a pensar na minha própria existência enquanto copo, na minha vida. Vocês podem achar algo estranho, mas nós os copos também temos preocupações, desejos, medos, sonhos, paixões e muito mais coisas.

Lembro-me como se ainda tivesse sido ontem de altura em que saí da fábrica de vidros da Marinha Grande, fui considerado um copo de qualidade baixa, uma vez que o vidro do qual sou feito tem bastantes impurezas e quem me fez  não teve muito cuidado e saí com alguns defeitos. Fiquei num armazém dentro de uma caixa durante duas mil cento e noventa e três refeições, bem já me esquecia que não medem o tempo assim, fazendo as contas correctamente isto dá cerca de dois anos humanos, até que houve alguém que decidiu levar-me com os meus irmãos para um supermercado para me vender como se eu não fosse nada mais do que um pedaço de vidro sem sentimentos nem utilidade, sem se lembrarem que sou eu que levam à boca para refrescarem e matarem a sede. Colocam-me na prateleira junto aos meus irmãos com um enorme cartaz  a dizer promoção especial. As pessoas aproximavam-se  e iam-nos pegando um a um, avaliavam os nossos defeitos como se estes fossem algo de mau mas, são estes que nos dão a nossa individualidade, pegavam na quantidade que queriam e partiam. Sentia-me cada vez mais só, os nossos números diminuíam rapidamente sem que nada pudéssemos fazer para o evitar, o que queríamos era ficar todos juntos como tínhamos estado até ali. Não conhecíamos mais nada, nem queríamos. Todos tínhamos medo do que poderia suceder caso ficássemos sós. Sem companhia poderíamos ensandecer, sem ter ninguém com quem falar. A solidão é algo que nenhum  copo deseja, queremos sempre alguém ao nosso lado para conversar. Finalmente chegara a minha vez. A dona desta casa escolheu-me e mais onze dos meus irmãos e levou-nos com ela.

Continua….

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